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Ter ou não ter namorado, eis a questão

Atribuído a Carlos Drummond de Andrade,
mas é de Artur da Távola

 

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

 

Tentando um novo amor

Para curar uma dor de amor, digam o que quiserem, só conheço um remédio: um amor novinho em folha. Enquanto nosso coração não encontrar outro pretendente, ficaremos cultivando o velho amor, alimentando-o diariamente, sofrendo por ele e, no fundo, bem no fundinho, felizes por ter para quem dedicar nossos ais e nossa insônia. A gente só enterra mesmo o defunto quando outra pessoa surge para ocupar o posto.

Se isso lhe parece uma teoria simplista, toque aqui. É simplista sim. Isso de enterrar o defunto do dia pra noite só funciona quando o defunto era apenas uma paixonite, um entusiasmo, fogo de palha. Porém, se era algo realmente profundo, um sentimento maduro, aí o efeito do novo amor pode revelar-se um belo tiro pela culatra. Ele acabará servindo apenas para dar a você a total certeza de que aquele amor anterior era realmente um bem durável. E a dor voltará redobrada.

Um beijo que deveria inaugurar uma nova fase em sua vida pode trazer à tona lembranças fortes do passado, e nem é preciso comparar os beijos, apenas as sensações provocadas. Quem já vivenciou isso sabe o constrangimento que é beijar alguém e morrer de saudades do antecessor.

Um novo amor pode transformar o que era opaco em transparência: você não sabia exatamente o que sentia pelo ex, se era amor ou não, então surge outra pessoa e você descobre que sim, era amor, caso contrário não sentiria esse abandono, essa perturbação, essa forte impressão de que está fazendo uma tentativa inútil, de que não conseguirá ir adiante.

Mas o que fazer? Encarar uma vida monástica, celibatária? Nada disso. Viva as tentativas inúteis! Uma, duas, três, até que alguma delas consiga superar de vez a inquietação do passado, que venha realmente inaugurar uma nova fase em sua agenda amorosa, que deixe você tranqüilo em relação ao que viveu e ao que deve viver daqui pra frente.

No entanto, quanto mais escrevo, mais me dou conta de que não há fórmula que dê garantia para nossas atitudes, de que não há pessoa neste mundo que não possa nos surpreender, de que tudo o que vivemos são tentativas, e que inútil, inútil mesmo, nenhuma é.

 

Martha Medeiros

Amigo.

Nesta vida inteira vi muitas definições de “amigo”

nenhuma tão verdadeira quanto esta,

que tenho agora comigo.

Não foi uma definição escrita, lida, ou mesmo falada.

Foi sua atitude bonita, sem ter pedido nada.

Não poupou as palavras, ditas com sinceridade.

Foi leal, foi fiel, sem nenhuma maldade.

Abusou da franqueza dizendo o que achou que devia,

mas mantendo a fineza, que uma dama merecia.

Mostrou-me o caminho que eu não deveria tomar,

pois, como um pássaro cego, eu tentava voar.

Na profundidade desse seu gesto, pude compreender:

Você sabia muito mais de mim,

do que eu deveria saber.

E nesse seu ombro amigo eu pude, inteira, me apoiar.

Eu que só queria sua mão para segurar.

Para “amigo” não busco mais nenhuma definição,

porque carrego esse seu gesto bem

guardado no coração.

Nota

Mais de Olavo Bilac

XII

Sonhei que me esperavas. E, sonhando,

Saí, ansioso por te ver: corria…

E tudo, ao ver-me tão depressa andando,

Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando

Meus passos, através da ramaria,

Dos despertados pássaros o bando:

“Vai mais depressa! Parabéns!” dizia.

Disse o luar: “Espera! que eu te sigo:

Quero também beijar as faces dela!”

E disse o aroma: “Vai, que eu vou contigo!”

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:

“Como és feliz! como és feliz, amigo,

Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!”

Olavo Bilac

Citação

Um Beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,

Ou talvez o pior…Glória e tormento,

Contigo à luz subi do firmamento,

Contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:

Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,

E do teu gosto amargo me alimento,

E rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,

Batismo e extrema-unção, naquele instante

Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto,

Beijo divino! e anseio, delirante,

Na perpétua saudade de um minuto…

Olavo Bilac

Nota

Olavo Bilac

Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!

Que terias perdido, se, mais cedo,

Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo

Aos homens, afrontando-os face a face:

Quero que os homens todos, quando eu passe,

Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio

Deste amor, que minh’alma se consome

De te exaltar aos olhos do universo…

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:

E, fatigado de calar teu nome,

Quase o revelo no final de um verso.

Olavo Bilac

Vai…

Vai, pode ir,

Mas deixe saudades,

Não deixe uma má impressão.

Por onde passar use o bom senso,

Fale baixo, evite palavrões, seja onde for, seja apenas você,

O que já não é fácil, nesse mundo competitivo,

Onde saldos bancários representam mais que pessoas

E pessoas representam o que não são.
Não se deixe levar pelo primeiro impulso,

Use sempre a gentileza com quem quer que seja,

Imagine sempre “e se fosse com você”?

E se fosse com uma pessoa muito querida?
Nossa atitude muda quando queremos bem a uma pessoa,

E é essa atitude que devemos ter para com todos.
Parece que não muda nada, não é?

Parece que as pessoas nem notam a sua gentileza, mas há no mundo um circuito de energias,

Uma lei natural que ninguém, nem anjo, nem santo, nem o mais poderosos dos mortais pode mudar,

É a lei da reciprocidade: “atraímos o que emanamos”, é ação e reação sem tirar e nem por.
Colhemos exatamente o que plantamos.

Por isso não acredite em “injustiça eterna”,

Nem na justiça humana que falhou, a justiça da vida não falha, passe o tempo que passar.

Então, use o dia de hoje para plantar sementes amorosas,

Melhore seu sorriso,

Pense menos nos problemas,

Acredite mais no seu potencial,

Busque soluções…

Por Paulo Roberto Gaefke

 

 

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