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Nunca desista…

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Alguns sonhos são belos, outros poéticos; uns realizáveis, outros difíceis de serem concretizados; uns envolvem uma pessoa, outros, a sociedade; uns possuem rotas claras, outros, curvas imprevisíveis; uns são rapidamente produzidos, outros precisam de anos de maturação.

 

Há muitos tipos de sonhos. Sonho de se apaixonar por alguém, de gerar filhos ou conquistar amigos. Sonho de tirar um curso, ter uma empresa, ter sucesso financeiro para si e para ajudar os outros. Sonho de ter saúde física e psíquica, de ter paz interior e de viver intensamente cada momento da vida.

 

Sonho de ser um cientista, um médico, um educador, um empresário, um empreendedor, um profissional que faça a diferença. Sonho de viajar pelo mundo, de pintar quadros, escrever um livro, ser útil ao próximo. Sonho de aprender a tocar um instrumento, praticar desportos, bater recordes.

 

Muitos enterram os seus sonhos nos escombros dos seus problemas (Freud, 1969). Alguns soldados nunca mais foram motivados para a vida depois de verem os seus colegas morrerem em combate.

 

Alguns oradores nunca mais recuperaram a sua segurança depois de terem um ataque de pânico em público. Alguns desportistas não conseguiram repetir a sua performance depois de fazerem uma cirurgia correctiva ou serem apanhados no controlo antidoping.

 

Algumas mulheres nunca mais tiveram um orgasmo depois de serem violadas ou terem sofrido abusos sexuais. Alguns homens e mulheres nunca mais conseguiram entregar-se depois de serem traídos por quem amavam.

 

Alguns jornalistas enterraram a sua criatividade depois de serem cerceados pelos seus superiores. Alguns jovens bloquearam a sua inteligência depois de terem um péssimo desempenho em provas e concursos.

 

Pessoas encantadoras bloquearam os seus sonhos ao longo da vida. Mas precisamos de os desenterrar, superando os nossos traumas, conflitos, focos de tensão. Os nossos sonhos precisam de respirar novamente.

 

O presidente Franklin Roosevelt disse que a única coisa a temer é o medo do medo. É preciso vencer o medo evidente e principalmente o medo subtil, o medo do medo, para fazer os  sonhos levantarem voo.

 

Retirado do livro
de Augusto Cury

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O PRIMEIRO BEIJO

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o
namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto:
ciúme.

– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico
feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou
uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:

– Sim, já beijei antes uma mulher.

– Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O
ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no
meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no
rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso
como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas
sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da
balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com
a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar,
pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem
sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de
reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra.
Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior
do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa
fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida
e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que
pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um
pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo
sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas,
enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora
se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos
saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os
arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele
não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o
chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou,
todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao
chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu
os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O
primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a
vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se
saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de
sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma
mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que
realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais
frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na
boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de
uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência,
sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido
vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu
um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e
tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um
passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado,
atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada,
estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha
acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio
dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se
transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com
sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da
profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que
logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais
sentido: ele…

Ele se tornara homem.


Clarice Lispector, in "Felicidade Clandestina" – Ed. Rocco – Rio de Janeiro, 1998

Conhecendo um pouco de

Edgar Allan Poe (Boston, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, 7 de
Outubro de 1849) foi um escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor
estado-unidense.

Poe é considerado, juntamente com Jules Verne, um dos precursores da
literatura de ficção científica e fantástica modernas. Algumas das suas
novelas, como The Murders in the Rue Morgue (Os Crimes da Rua Morgue), The
Purloined Letter
(A Carta Roubada) e The Mystery of Marie Roget (O
Mistério de Maria Roget), figuram entre as primeiras obras reconhecidas como
policiais, e, de acordo com muitos, as suas obras marcam o início da verdadeira
literatura norte-americana.

Obras

  • "A Dream" (1827)
  • "A Dream Within a Dream" (1827)
  • "Dreams" (1827)
  • "Tamerlane" (1827)
  • "Al Aaraaf" (1829)
  • "Alone" (1830)
  • "To Helen" (1831)
  • "Israfel" (1831)
  • "The City in the Sea" (1831)
  • "To One in
    Paradise" (1834)

  • "The Conqueror
    Worm" (1837)

  • "Silence" (1840)
  • "Tell Tale Heart"
    (1843)

  • "Lenore" (1843)
  • "Dreamland" (1844)
  • "The Divine Right of Kings" (1845)
  • "The Raven" (1845)
  • "Ulalume" (1847)
  • "Eureka" (1848)
  • "Annabel Lee" (1849)
  • "The Bells" (1849)
  • "Eldorado" (1849)
  • "Eulalie" (1850)
  • "O Gato Preto"

O Gato Preto

Não espero
nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no
entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse
tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se
negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza,
não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de
aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo,
clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples
acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais
acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e instruíram.

No
entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra
coisa senão horror _ mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos
terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência
que reduza o meu fantasma a algo comum _ uma inteligência mais serena,
mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas
circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma
sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Desde
a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu
caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo
dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais,
e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com
eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando
lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta
peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma
das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por
um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a
natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há
algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que
toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de
comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei
cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante
à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a
oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos.
Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um
gato.

Este último era um animal
extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa
sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no
íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes
alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são
feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso:
menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto
_ assim se chamava o gato _ era o meu preferido, com o qual eu mais me
distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha
dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

Nossa
amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu
caráter como o meu temperamento _ enrubesço ao confessá-lo _ sofreram,
devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior.
Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente
aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao
dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com
violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu
caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os
maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração
suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia
escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão,
quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia
tomando conta de mim _ que outro mal pode se comparar ao álcool? _ e,
no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte,
se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os
efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar
a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a
impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele,
assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os
dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já
não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma
abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada
pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um
canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente,
arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me
de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando,
com a chegada da manhã, voltei à razão _ dissipados já os vapores de
minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um
sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um
sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu
impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a
lembrança do que acontecera.

Entrementes, o gato
se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é
certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor.
Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar,
fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda
o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com
aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara
tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então,
como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da
perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não
obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é
um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou
sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu,
centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão
de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma
inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo,
para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como
tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda
final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma,
de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi
o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que
infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um
nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore.
Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do
mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e
porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse
contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado _
um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se
é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus
infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na
noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado
pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas.
Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma
criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa.
Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então,
me entreguei ao desespero.

Não pretendo
estabelecer relação alguma entre causa e efeito – entre o desastre e a
atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de
fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de
acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As
paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única
exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio
da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco
havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo _ coisa que
atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão
se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com
particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras
"estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes,
despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em
baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco.
A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma
corda em tomo do pescoço do animal.

Logo que vi
tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra
coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas,
finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora
enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o
jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter
retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta,
para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a
intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a
vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede
que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco
desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora
isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo,
de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato
que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo,
profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do
gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de
sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a
lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então
freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante
que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me
achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a
atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto
de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que
o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava
fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter
visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a
mão. Era um gato preto, enorme _ tão grande quanto Pluto _ e que, sob
todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um
único pêlo branco em todo o corpo _ e o bichano que ali estava possuía
uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe
quase toda a região do peito.

Ao acariciar-lhe o
dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em
minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o
animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição,
mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia;
jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e,
quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição
de acompanhar-me. Permiti que o fizesse _ detendo-me, de vez em quando,
no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à
vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos
preferidos de minha mulher.

De minha parte,
passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o
contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que – não sei como nem
por quê _ seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia.
Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no
mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como
a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo
fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra
ele qualquer violência; mas, aos poucos – muito gradativamente _ ,
passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de
sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.

Sem
dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na
manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também
havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas
contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois,
como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos
que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem
como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.

No
entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa
parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele.
Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer
com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se
embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas
odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as
pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas
garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões,
embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo
devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo _
apresso-me a confessá-lo _ , pelo pavor extremo que o animal me
despertava. Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e,
contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha
confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso _ , quase me envergonha
confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram
aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar.
Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da
mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença
visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O
leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha,
a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira
quase imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo,
lutou por rejeitar como fantasiosa _, adquirira, por fim, uma nitidez
rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me
faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de
horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado.
Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem
da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de
agonia e de morte!

Na verdade, naquele momento eu
era um miserável _ um ser que ia além da própria miséria da humanidade.
Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente
destruído… uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à
imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de
mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso!
Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à
noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de
sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso
_ encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim _ pousado
eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de
tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos
maus converteram-se em meus únicos companheiros _ os mais sombrios e os
mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou
em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade _ e enquanto eu,
agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis
acessos de cólera, minha mulher – pobre dela! – não se queixava nunca
convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

Um
dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o
porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O
gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a
ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror
pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que
teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o
braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o
braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro.
Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado
o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder
o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de
noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.

Ocorreram-me
vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos
pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma
fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do
quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma
mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o
retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais
prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade
Média com as suas vítimas.

Aquela adega se
prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido
construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em
toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer.
Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma
chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto
da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos
naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que
nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita. E não me
enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei
facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de
encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder
recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como
estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a
precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir
da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao
terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não
apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o
maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo:
"Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".

O
passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão
grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele
momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua
sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de
minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me
encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou
imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão
detestável felino. Não apareceu também durante a noite _ e, assim, pela
primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e
profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a
minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro
dia _ e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem
livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria
a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação
pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi
prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria
em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu
considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

No
quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou,
inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação.
Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu
ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais
pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de
esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta
vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse.
Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o
porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito,
caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava
inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me
inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de
desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e
também para tomar duplamente evidente a minha inocência.

_
Senhores _ disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada _ , é
para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita.
Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia.
Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem
construída… (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo
de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa
excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? _ ,
estas paredes são de grande solidez.

Nessa
altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a
bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual
se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que
Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas
mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro
com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança;
depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo,
completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de
horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno,
da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes
com a sua condenação.

Quanto aos meus
pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à
parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na
escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços
vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em
adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado,
apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.

Sobre
sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante,
achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio
e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o
monstro dentro da tumba!


Edgar Allan Poe.In: Histórias Extraordinárias.

COMO SE TORNAR ETERNO

RECEITA PARA SER ETERNO

PLANTAR UMA ÁRVORE – Quem planta uma árvore perpetua a

vida e a natureza, pois a árvore continua a purificar o ar, dar sombra,

alimento e abrigo. A árvore é a continuação da vida.

FAZER AMIGOS – Nossa convivência com as pessoas nos torna

parte delas e nos faz permanecer vivos na lembrança de nossos amigos.

CRIAR UM FILHO – Criar um filho (mesmo que seja adotado)

significa ensinar a viver, e passar a ele toda a nossa experiência de vida,

que vai permanecer sempre em nossos descendentes.

ESCREVER UM LIVRO – Nossas idéias e ensinamentos escritos

poderão chegar mais longe e permanecer no tempo, mantendo vivo

nosso pensamento.

SER ARTISTA – Os artistas se vão, mas as artes permanecem. E

estas são parte do mesmo e da evolução da humanidade.

FAZER HISTÓRIA – As atitudes de pessoas corajosas, que

ousaram desafiar a acomodação e escrever o destino do seu tempo,

melhorando a vida de seus semelhantes, estas não serão esquecidas

jamais, e permanecerão vivas nas páginas de nossa história.

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